quarta-feira, 25 de novembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
REFLEXÕES SOBRE A ARTE CÊNICA
Pegando o gancho do post anterior sobre Plínio Marcos, encontrei em seu site este manuscrito. É de arrepiar. Obrigado, meu grande mestre.
Segue abaixo o texto digitado por mim:
REFLEXÕES SOBRE A ARTE CÊNICA
Plínio Marcos
Teatro só faz sentido quando é uma tribuna livre onde se pode discutir até as últimas conseqüências os problemas dos homens.
A arte é uma magia. A gente aprende, mas ninguém ensina.
A técnica é uma coisa mecânica, disso ninguém duvida, mas os artistas, por mais sensíveis que sejam não podem dispensá-la. Precisa apurar a técnica com muito treino até incorporá-la totalmente até poder usá-la de forma que ninguém perceba que ele tem técnica. Isso. Tem que usar a técnica sem pensar nela, sem senti-la. Aí então o artista pode se valer da técnica para extravasar seus sentimentos. No sentido de aprender a técnica, a escola pode ser útil.
Existem dezenas de cursos de arte dramática na cidade. Existem milhares de aprendizes de ator nesses cursos. Porém só um número reduzido deles assiste aos espetáculos em cartaz. Esses estudantes querem ser artistas, mas não amam a arte. Alegam dificuldades financeiras para não verem as peças. Mentira. Não tem amor ao teatro. Por isso nem pensam em sacrificar duas cervejas por um bom espetáculo. O pior de tudo é que seus professores nem sequer sugerem aos alunos que devem ver os grandes atores em cena.
Um diretor não pode dar nada ao ator, pois não há o que dar. Um diretor pode instigar um ator a procurar o que precisa dentro de si mesmo, por mais que o ator insista em pedir luz ao diretor. Esse não pode ir além do limite de incentivador. Mesmo que tente, o diretor não conseguirá dar. Quanto mais tentar, mais diretor e ator vão se embrutecendo, se reduzindo, o diretor a um amestrador e o ator a um animal treinado. Nada que vem de fora ajuda o ator a criar o seu personagem. Este tem que nascer de dentro do ator, nutrido de coisas que estão dentro dele.
Um dia fui assistir um ensaio teatral. Não gosto disso, mas fui. Desse ensaio participavam um velho ator cheio de experiência, um jovem ator cheio de entusiasmo e um diretor cheio de sucessos. O velho ator se valia de truques, caretas, clichês. O jovem ator se esforçava, gritava, espumava, inchava a veia do pescoço, suava. O diretor com mau humor, tédio, desprezo pelo trabalho se limitava a corrigir marcas. Nem um deles procurava nada. Por que ensaiavam? Não sei.
Encontrei uma bela moça que se formou em Arte Dramática. Perguntei o que pretendia fazer. Sem constrangimento respondeu que tinha levado fotos numa agência de publicidade e aguardava chamadas para participar de comercias. Será que alguém precisa estudar para isso?
Eu logo reconheço quem está no teatro obedecendo a um imperioso apelo vocacional ou quem está procurando espaço para passear sua beleza. Aos primeiros, trato como irmãos. É gente que exerce seu ofício como sacerdócio. Merecem todo o meu respeito minha admiração meu amor. Do segundo tipo de gente tenho pena. Jamais a arte e a poesia vão brotar do interior de pessoas fracas.
Aonde existe autoritarismo, o artista é sufocado. O autoritarismo gera o obscurantismo que favorece o copiador, o bobo da corte e os senhores da estética decorativa.
O crítico de arte tem muita importância no sentido de ajudar o artista a conscientizar o seu trabalho, a registrar se as propostas foram realizadas, as metas atendidas. Esse é no meu entender o papel do crítico. Porém quando um indivíduo porque tem espaço em jornal, TV, rádio se nomeia crítico e passa a escarrar regra dizendo sem cerimônia o que o artista devia ou não devia fazer ou então se limitando a dizer que uma coisa é bonita ou feia, sem saber dar explicações, fundamentar suas opiniões, esse individuo não passa de um cretino, aninho* na medida da tiragem do jornal onde escreve, deve ser desprezado pelos artistas. Porque pelo público são completamente ignorados.
O ator começa a ficar soberano do seu talento quando ganha consciência de que entra no palco para servir e não para ser servido.
* Não consegui entender a primeira letra.
DEZ ANOS SEM PLÍNIO MARCOS
DO BLOG DO BORTOLOTTO
Ontem a Folha de São Paulo comemorou os 10 anos da morte de Plinio MarcosE me pediram pra que eu repaginasse algum personagem dele tipo "o que o personagem estaria fazendo hoje". Eu escolhi o Vado da peça "Navalha na Carne". Imaginei o Vado com 70 anos. Na Folhapor um lance de espaço (eles pediram 2.500 caracteres e eu escrevi 3.300) a micro-peça foi publicada com alguns cortes que eu mesmo fiz pra evitar que cortassem por lá e em lugares errados comprometendo o fluxo dos díalogos e a pequena história que tentei contar. Aqui eu vou publicar como escrevi inicialmente. Pra quem tiver a fim de ler.
DEPOIS DE TODO O SUMO
Personagens :
Vado
Lúcio
César
(Vado está sentado na porta do bar. Está descascando uma laranja. É um velho mal encarado, por volta de 70 anos. Lucio se aproxima dele)
LUCIO : Me disseram que você é o Vado.
(Vado continua descascando a laranja. Não olha para Lucio)
VADO : Quem quer saber?
LUCIO : Eu me chamo Lucio.
VADO : O seu nome não significa nada pra mim. Quem quer saber?
LUCIO : É que me disseram que você podia conseguir umas coisinhas.
VADO : Quem “disseram”?
LUCIO : Lá dentro do bar. Eles disseram. Fala com o Vado, aquele velho mal encarado lá fora. Ele pode te conseguir umas coisinhas.
VADO : Eles falaram assim, é?
LUCIO : Foi.
VADO : Eles me tem em alta conta.
LUCIO : (sem jeito) É.
VADO : (olhando pra Lucio) Que tipo de coisinha?
LUCIO : Do tipo que a gente cheira.
VADO : Eu cheiro muita coisa. Por exemplo, lá embaixo no meio das pernas da mulher...eu gosto de cheirar.Você não?
LUCIO : Não é exatamente o que eu tava pensando.
VADO : Eu só posso cheirar, sabe como é. Às vezes eu pago pra elas deixarem eu cheirar.
(fica um tempo olhando Lucio sem falar nada)
LUCIO : E então?
VADO : Não.
LUCIO : Não?
VADO : Não.
LUCIO : Não o que?
VADO : Não tenho coisinha nenhuma.
LUCIO : Mas me falaram...
VADO : Eles te enrolaram.
LUCIO : Você sabe onde eu posso conseguir...
VADO : Não. Não consigo nem imaginar.
LUCIO : É sério isso?
VADO : Olha, rapaz...
LUCIO : Lucio.
VADO : Tanto faz. Só tô aqui fora descascando uma laranja. Não faço nem idéia do que você tá falando.
LUCIO : Mas você parecia...
VADO : Eu pareço um velho mal encarado. É assim que eles me vêem. E você pode achar que eu pareço o que você quiser. Não tô nem aí.
LUCIO : Acho que você não confia em mim, olha...VADO : Você vai me contar a sua vida? Eu tenho certeza que conheço melhores. Não preciso conhecer a sua.
LUCIO : Ok, entendi. Vou tentar com outra pessoa então.
(Vado volta a descascar a laranja ignorando Lúcio totalmente)
LUCIO : Até logo, senhor Vado.
(Vado não responde. Lucio vai embora. Vado termina de descascar a laranja. Corta a tampa dela e começa a chupar e olhar para Lucio que está se afastando. César, um outro velho que é o dono do bar sai lá fora e fica olhando para Vado)
CÉSAR : O que é que ele queria?
VADO : Cheirar alguma coisa, parece.
CÉSAR : Hummm.
VADO : Ele me contou que vocês disseram que eu era um velho mal encarado.
CÉSAR : Você não é nenhuma miss, né, Vado?
VADO : Eu já fui um cara bacana. Tive muitas mulheres. Elas me sustentavam.
CÉSAR : Eu já fui um super-herói. Salvava mocinhas indefesas de super-vilões e depois comia caviar com meu mordomo enquanto assistia meus super feitos no meu super aparelho de tv.
VADO : E o que foi que aconteceu com você?
CÉSAR : Nada demais. Eu envelheci.
VADO : Cafetões também envelhecem.
CÉSAR : Chupa sua laranja, Vado. Depois joga o bagaço fora. Não deixa por aí sujando a frente do bar, tá?
(César entra pra dentro do bar. Vado termina de chupar a laranja. Fica olhando pro bagaço sem parecer saber o que fazer com ele. Deposita cuidadosamente o bagaço no banco ao seu lado. Fica olhando para um lugar indefinido com expressão também indefinida. Luz cai)
Mário Bortolotto
Primavera de 2009
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